Reciclagem – Porque sinto saudades de Harry Potter

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Lia Wyler e seu despeito

“Os jovenzinhos que criam comunidades no Orkut para tudo, inclusive para insultar meu trabalho, ficam bravos com a minha tradução porque têm vergonha de admitir que gostam de um livro para crianças.”

Essas são as mui inteligentes palavras de um dos maiores nomes em tradução do país. Lia Wyler. Ao invés de admitir que infantilizou a maioria das traduções que fez do livro da JK Rowling, por ser, em princípio, um livro voltado ao público infantil, Lia Wyler e seu despeito, resolveu pôr a culpa em seus críticos. Para ela, somos nós, jovens adultos, ou adolescentes em fase mais avançada, que temos um problema, que temos um defeito que não queremos encarar: Gostamos tanto, meu Deus, de um livro para crianças.

Agora, será que ela pensaria a mesma coisa daqueles que não têm essas mágoas, essas “podridões” a encarar? Será que ela receberia as minhas críticas? Sim, as minhas. Eu não estou nem um pouco preocupada se o livro é infantil ou não. Desde criança eu leio qualquer livro que me interesse, eu tendo a profundidade emocional e intelectual para entendê-lo. Livros infantis, agora que sou adulta, obviamente caem no meu entendimento. Talvez eu até analise mais profundamente e veja coisas que, quando criança, não veria.

Mas, antes de tudo, o que eu sempre soube é que crianças não são estúpidas. Algumas podem até ser, a maioria, por não terem acesso a cultura de verdade. Eu quando criança lia Charles Dickens, um homem que escrevia sobre crianças, para adultos. David Copperfield era ,meu namoradinho, a pessoa absurdamente real e ao mesmo tempo com a cabeça absurdamente no mundo dos dramas, que eu queria conhecer e casar. Simplesmente porque quando criança, era sensível até demais e tinha o mesmo nível de drama que Master Davy, e, como toda criança dramática, achava que estava só nesse mundo.

Hoje empresto minha paixão à minha personagem que, como eu, não se importa muito se o livro é de adulto ou de criança, portanto que seja bom. Meu sonho é escrever um livro infantil com as ilustrações fofas da minha irmã. Aqueles livros de capa dura, com ilustrações mágicas que enchiam seus olhos quando você lia, lembra?

Então, queridíssima Lia Wyler, eu não me importo em ler livros infantis, na verdade, não me importo nem em amá-los de paixão. Pelo que li, e eu li demais, sobre a nossa estimadíssima e milionaríssima J.K Rowling, ela também não estava se importando muito com isso. Pensou em uma história sobre um bruxinho e foi construindo a história ao longo dos anos. Aconteceu que foi classificado como infantil. Não era pra menos, afinal, retratava maravilhosamente bem a visão de uma criança de dez anos. J.K não se importou. Disse ter ficado um pouco apreensiva porque via crianças muito pequenas, mais novas que o próprio Harry, lendo sobre as guerras e crueldades que o inimigo do bruxinho, Voldemort, e seus capangas faziam.

Mas, J.K Rowling também não acredita que as crianças sejam burras. J.K Rowling não “inglesou” os nomes dos personagens que vinham de outra cultura. Rowling inventou desde nomes totalmente bobos (quando cabia) principalmente os dos doces e “travessuras” que aparecem nas lojas de Hogsmead e nos bolsos dos gêmeos Weasley até nomes altamente bem estruturados, com misturas de línguas diferentes, de mitologia e outras coisinhas culturais. Até trivialidades bobas como um detalhe no livro Fantastic Creatures and Where to Find Them – um livreto que ela lançou para a Comic Reliefs em uma das muitas caridades que se dispôs a fazer depois que recebeu a responsabilidade de ser extremamente rica e figura pública transformada em exemplo para crianças – em que comenta sobre um bruxo que tentou domar um cavalo alado dos mais bravos e acabou caindo dele. O tal do Belerofonte. Mitologia Grega.

J.K Rowling levou seu bruxinho a idade adolescente e com ele muitos dos seus fãs. E ela retrata tão bem os sentimentos de adolescente que, agora, os adolescentes não se preocupam mais se seu livro favorito é infantil. Na verdade, Harry Potter agora é considerado infanto-juvenil. Digamos que Harry Potter seguisse até os 30 anos do bruxo, talvez a lista do NY Times o colocasse em livros para adultos e talvez os críticos começassem a dizer que é um livro quase filosófico.

Não exageremos, né?

Eu acho isso tudo bobagem. O que eu acho grave é uma tradutora, com a cabeça pequena e bem esquecida, achando que toda criança é idiota, imbecilizar um monte de coisas do livro através da sua gloriosa tradução. Quando ganhei Harry Potter – do meu pai que sabia do hype e da minha idolatria a livros sobre mitologia, magia e cultura inglesa e irlandesa – li alguns capítulos e larguei pra lá. Era obviamente um livro bobo de criança. Mas, quando o boom potteriano foi aumentando e a warner foi fazer um filme, minha curiosidade e minha lei suprema do ler antes de ver, prevaleceu e lá fui eu voltar à minha cópia do tal Harry Potter. Li até o final, achei interessantíssimo, como um livro infantil. Fui lendo os outros e, como minha fome literária não encontra limites, sai baixando os originais na internet. O mesmo aconteceu com a minha mãe, que não tinha interesse nenhum nos livros, até ler um original.

Outro mundo, não é mesmo? Adeus palavras imbecis, adeus nomes aportuguesados em uma sociedade inglesa. Adeus Lia Wyler, here comes the real JK. Apaixonei. Amo. Idolatro. Venero. Minha mãe, por sinal, aceitou dividir comigo o sétimo, e já pedimos, antes de lançar. O livro bem escrito (embora com algumas falhas devido à pressão, como aquele capítulo infeliz do Grope), não por Lia Wyler, mas por J.K Rowling.

J.K Rowling, meu role model, eu que não tenho pretensões de ser escritora que só atinge alguns poucos metidos a intelectuais que acham que só eles têm profundidade suficiente para entender os “segredos da vida”, eu que gosto de livros para qualquer idade e qualquer público portanto que sejam bons. Como não amar alguém que fez crianças crescerem investigando mitologias e histórias de santos para adivinhar o que acontece nos próximos livros? Leiam alguns ensaios da mugglenet e vejam a que nível chega algumas análises literárias daquelas crianças e adolescente (e muita gente da minha idade ou mais velhos, sim). Uma profundidade que minhas colegas das disciplinas de letras que fiz seriam incapazes de acompanhar.

Aí, eu lembro que algumas daquelas pessoas ignorantes que faziam disciplinas de letras, viram tradutoras, viram Lia Wyler, e acham que sabem alguma coisa. Tiram da cabeça que crianças não vão entender se o nome for em inglês, mas que elas vão achar muito bom pessoas inglesas chamadas Tiago. Tiram toda a complexidade de um monte de coisa, não infantiliza, mas imbeciliza as palavras e o texto. E depois vem colocar o despeito em nós, leitores críticos. Talvez ganhe algum reconhecimento daquele bando de gente que fala mal de Harry Potter sem nunca ter lido. Talvez porque essas pessoas devam agradecer a ela achar que o bruxinho é bobo, infantil e imbecil, principalmente porque o mais porco dos trabalhos dela, foi aquele que ela teve mais tempo pra traduzir e aquele que os críticos ignorantes de Harry Potter não gostaram ao ler um capítulo.

Nada contra quem não quer entrar no universo potteriano. Nada contra quem não gosta. Nada contra tradutores que cometem um erro e agora têm que continuar com esse erro. Tudo contra pessoas que julgam o que não conhecem e ainda se acham melhores que os outros por isso, tudo contra quem não gosta sem nem ler, tudo contra pessoas que cometem um erro e não admitem e jogam em cima dos seus críticos o despeito tremendo que guardam.

Mas, não se preocupem crianças, quando eu fizer meu livro infantil, não vou julgar que vocês são estúpidos e não vou deixar que ninguém transforme significados como Marauder em Maroto. Pelo menos nos meus livros não.

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  1. TUDO NA VIDA É FILOSOFIA,TUDO É FILOSOFICO, E SE VOCE NÃO ENCONTROU FILOSOFIA NOS ESCRITOS DE J ROWLING ,PROCURE NAS LIVRARIAS HARRY POTTER E A FILOSOFIA, DA EDITORA MASDRA,
    NA VIDA TUDO É FILOSOFIA.

  2. Entendo seu ponto, tanto enquanto contador de histórias quanto enquanto tradutor. Tradutores precisam ter a humildade de perceber que as obras que traduzem são de outrem e, portanto, devem respeito dobrado ao público que não é realmente seu.

    Lia Wyler fez o óbvio, o mesmo óbvio que tantos outros tradutores sem grande qualidade ou humildade já fizeram ao traduzir obras infantis. Traduziram como traduziriam para um idiota, porque afinal é isso que devem acreditar que são as crianças. Talvez as crianças idiotas cresçam para se tornar tradutores como Lia Wyler, quem sabe?

    O problema é que o público, que não era de Lia, mas de Rowling, não curtiu — e com razão — a tradução para idiotas feita por Lia. E Lia Wyler, do alto de sua falta de humildade, achou que idiotas devem ser aqueles que discordam dela — uma crença muito comum entre os verdadeiros idiotas.

    Harry Potter merece uma tradução decente (e respeitosa) para o português. Quem sabe, realizada por alguém que tenha amor pela tradução bem feita e pelo público, como meu amigo Fábio Fernandes. Mas isto são apenas devaneios, por hora.

    E por falar em humildade, já é hora de eu demonstrar a minha ao reconhecer que J.K.Rowling fez um bom trabalho com seu Harry Potter, indiferente de nunca ter reconhecido sua inspiração no Tim Hunter do Books of Magic de Gaiman. J.K. nunca precisou escrever notas de agradecimento a Hesíodo, Homero ou Sir Thomas Mallory, por que precisaria fazê-lo para Neil Gaiman? Os grandes contadores de histórias não precisam, ou não deveriam precisar, destas amenidades.

    Não posso dizer que seja fã de Harry Potter. Lí os dois primeiros livros, e não consegui continuar — talvez por conta da péssima tradução — e assisti quase todos os filmes. Gostei de algumas coisas, achei outras pobres (nos filmes), mas reconheço que talvez não conheça de verdade a obra de J.K.Rowling por nunca tê-la lido no original. Mas se a Lulu gosta tanto, deve ser fantástica, e eu que nunca percebi isso. Um dia eu me debruço a lê-la no original.

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