Arquivo mensal: março 2006

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Boredom Kills the Souls of the Brave

ALice era uma garota de cachos meticulosamente arrumados. Quando ela se olhava no espelho, imaginava que o que havia de bom em sua condição é que a vaidade que ela nunca teve estava agora nas mãos de sua mãe, que sempre tivera vaidade por ela e era muito jeitosa. Seus olhos pretos e grandes brilhavam no espelho com uma luz que não se refletia em nada mais em toda Alice.

Ela sofria de tédio. Sua alma era fosca, abafada por um véu de poeira e livros que ela sabia de cor. Não havia nada de novo em sua vida e sua infelicidade era enorme, mas ninguém se importava em sanar. Afinal, todos imaginavam que a jovem Alice apenas não se acomodava diante do fato de que perdera seus movimentos em um acidente.

O pior para Alice não era a consequencia de ter se tornado tetraplégica e sim da total insignificância do acidente. Ela sequer se assustou, escorregou no chão da cozinha e apenas soltou um pequeno gemido de surpresa, só foi apenas perceber que acontecera algo de grave quando bateu com a nuca na quina da pia e sentiu sua cabeça rodar, o mundo escurecer e todo seu corpo coçar de uma só vez.

Depois não sentiu mais nada, mas isso era apenas o reflexo de sua alma em seu corpo. Não chorou, não se desesperou, não sentiu pena de si. Estava paralisada a muitos anos, apenas não contou a ninguém e ninguém se importou de notar.

Alice desviou os grandes olhos negros do espelho para a janela e durante horas sem fim analisou cada detalhe da paisagem. Pedia para sua mãe levá-la a lugares bonitos onde contemplava a natureza durante horas. Percebia cada nuance de verde na vasta campina e cada detalhe do ritmo das águas de um rio. Decorava os ruídos de carro e interpretava o que cada buzina queria significar.

De um certo modo, todo sua imobilidade a fizera mais sábia e contemplativa. Mesmo assim, sentia que seu coração que antes fora forte e audaz não suportaria mais aquilo. Dentro do seu quarto então, ela fechava os olhos e conjurava cada pequeno detalhe que lhe fosse aprazível e construía uma paisagem, uma cena, uma voz, um rosto, tudo cheio de pequenas e bem detalhadas características, dando personalidade até mesmo para as rochas onde algum navio iria se estraçalhar.

E vivia em mundos muito longe dali. Dali vinha o brilho dos seus olhos, o pouco de força que havia em seu coração. Então, cansada do tédio de uma vida desaventurada, Alice começou a narrar histórias e mais histórias para seu gravador acoplado em sua cadeira. Depois de passar noites em claro ditando para a máquina tudo o que ela imaginava, ALice chamou sua mãe.

Escreva livros, ela disse após lhe contar do gravador, e faça com que chegue aos ouvidos de todos, e vamos viajar e conhecer pessoas e me deixe ver cada vez mais paisagens diferentes, pois irei retirar delas cada pequeno detalhe para fazer mais mundos e mais histórias.

Assim Alice esperava que sua alma voltasse a andar de novo. Era o que realmente lhe importava.